quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A cinza do céu

Vivia uma manhã...
Lenta.
Quieta.
Embebida pelo jeito das horas
ela caminha em segredo.
A vida se levantava bem cedo,
o olhar dela percorria uma calçada úmida,
parecia que tudo se escondia
o sol em seus olhos cristalinou
e tudo que era calmo
acelerava
o seu peito fugia do corpo
a água fugia do copo
e ela fugia dela
a sombra íntima dos dias que virão
pertubavam seus instintos.
[L.M.M.M]

sábado, 24 de outubro de 2009

A lenda do peixe francês

Era uma vez um peixe francês soturno e muito triste
Se perguntava: será que existem maiores mágoas que as minhas nestas águas?!
Dia após dia, imerso em agonia, nadava e tudo o que via era a arvore verde e amarela na beira do rio. E só pensava nela: ainda, a linda borboleta inteira feita de estrelas pretas que vislumbrou apenas uma vez. E tornou-se o grande amor do peixe francês e o peixe que nunca tivera dores
nem problemas com amores, pois sua memória e consciência no mundo duravam sempre trinta segundos. Porém, depois de ver aquele ser, arcanjo rompendo seu casulo, num pulo, criou fixa idéia na mente. E amor e morte... só sente.
O peixe leva na lembrança toda a pujança da paixão que arde desde aquela tarde.
A borboleta parecia uma bela letra no meio de negras constelações e modernos aviões.
Verão, outono, inverno e primavera e a paz pro peixe não viera. Nem nunca mais apareceu
a borboleta que o entristeceu.
Muito tempo tinha passado. A vida seguia com alma fria, seu fado. Mas eis que durante a quinta estação do ano o peixe avistou um ser humano. Assustado, jamais tinha olhado gente assim: frente-a-frente uma mulher entrou na água, nua. Numa negra noite de clara lua e o triste peixe percebeu no peito da moça de louça.
A borboleta de estrelas pretas.
As lágrimas no olho do peixe.
Eram feixes de emoções por todos os seus corações.
Ele olhava a borboleta mais bela que o som da clarineta, mexendo as asas como as algas das sua casa. Depois de chorar de alegria e conter seu corpo, em folia, o peixe viu a linda moça de louça, serena, saindo do rio. Com um riso no canto da boca e achando assim a vida pouca, lembrou que era o décimo terceiro mês:
Época em que todo peixe francês vê o seu amor pela última vez.
[Thiago E / José Quaresma]

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Cores e relatos

Vejo o caos,
lá fora o vento bate,
não sei quantas faces tem a cidade.
Incensa a tarde baforadas de verão.
Eu fico aqui esperando outro batuque.
Parece que esqueci como se voa
e essa lua quente apaga o passado
em qualquer que seja o lugar...
Não sei...
Lá fora o vento arde.
Lá fora se faz a tarde.
E se desfaz o plano
de ser quem quer que seja.
Sem se preocupar com o sumo do fato.
Sem reparar no dano.
Eu quis por um ponto
mas não sei como devorar o prato,
não sei como me aquietar.
Não sei o silêncio das tardes de domingo.
Não bebo água dessa fonte.
Acho que desaprendí como se voa.
Então fecho os olhos e passo.
Independentemente do espelho, escrevo.
Só não sei do medo, que pode parecer banal...
Transpiro...
Inspiro...
a sala vazia me absorve absolutamente.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Exorcizo te,omnis spiritus immunde

Eu que já te vomitei em miúdos,vou te esfoliar da minha pele e te descarnar das minhas unhas. É que aquele teu corpo que de todo era meu,esvaiu-se de mim e a minha alma que te respirava por inteiro anda com uma preciosa disposição ao esquecimento.

Exorcizo te,omnis spiritus immunde.
Sai ,vai embora com a enfermidade das tuas ilusões,vai de reto,que no certo há quem compartilhe da tua previsibilidade de espírito.
Exorcizo te,omnis spiritus immunde.

A porta não está mais à espera e nem os teus passos à escuta,vai e leva contigo os nossos suspiros que pairaram nesse passado que não foi ,que agora eu vou desconjugar todas as minhas vontades pretéritas de te por no meu futuro.

Exorcizo te,omnis spiritus immunde.
Vai,sai da frente do meu espelho ,vai de reto,que é certo o meu desejo de topar com meus olhos e zombar dessa piada quase trágica.
Exorcizo te,omnis spiritus immunde.

As entranhas ainda quentes , traidoras e incovenientes traçam a racionalidade mínima dos meus instintos.Provarei a mim mesma que os impulsos precisam de pulso forte para terem sua essência tempestiva retraída.

Exorcizo te,omnis spiritus immunde.
Sai,vai ,nem que seja num silencioso calafrio,vai de reto,que no certo eu desconjuro minha libido e te expulso dos meus sentidos.
Exorcizo te,omnis spiritus immunde.

Minha voz descrente perdeu-se nessa ladainha.Exorcizo te omnis.Do amor, a sobra tardia.Exorcizo te omnis. É a fé de quem mente mil vezes repetida.

[Vanessa Feitosa]

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Novos Baianos

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta
O tríplice mistério do "stop"
Que eu passo por e sendo ele
No que fica em cada um,
No que sigo o meu caminho
E no ar que fez e assistiu
Abra um parênteses, não esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro,
De um moleque do brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Por aí

de pés descalços
e em letras
e em melodiosas e frias tardes
e em nublados céus
Ouvindo
Sentindo
Entardece
...
Não vejo mais as horas
Não tem assobio no portão
Não tem chuva na calçada muda
tem um corpo jogado em um novo chão
A célula que alivia
É a mesma que cansa
Dessa dança sem fim
Desse jogo de alvo e lança
Não sinto as horas
O gesto lembra o que se esqueceu
E de repente...
Entardeceu

Não sei se foi o céu anil
Ou o ponto claro que me moveu
Mas algo aqui não me viu
Algo em mim não reconheceu
Aquele gosto vivo e noturno
Do anel e da pétala em meus dedos...
Foi um sopro nas mãos, um fogo alto nas escuridão
O que se fez em inteiro e parte hoje dissolveu em solidão
E de repente...
Entardeceu.
Laiz Mara Meneses Macedo

Gesto

É só um
calmo
líquido
castanho-rio

Gesto
e de resto mar.

sábado, 15 de agosto de 2009

Para abrir os olhos...

Amanhã bem cedo a vida vai levantar
E quem quiser ir tambèm
Vai ter que se apressar,se apressar
.
.
.
" Cumpro a sentença e compenso o que a cela limita.
Peço licença de meu senso e me faço visita.
Me conto como está um antigo amigo inventado,
Confesso a saudade de estar comigo ao meu lado e tento cavar um túnel que me leve de volta
A tudo que me prendeu,
Sem saber ao certo se era eu naquele instante,
Diante da chance de roubar um pouco de paz,
Roubar um pouco de paz... preso por não ter sossego.
Sem recompensa, um clima tenso, a pena me irrita.
Mas não faz diferença, me convenço e cancelo a visita.
Me dou um bolo sem nenhum sabor,
Bolo um plano de fuga à prova de dor e tento cavar um túnel que me leve de volta ao mundo que me prendeu sem saber ao certo se era eu naquele instante,
Diante da chance de roubar um pouco de paz, roubar um pouco de paz.
Brigo pelo estopim de um motim, de uma fuga em massa
Uma rebelião qualquer que me devolva a graça
E o sol quadrado não aquece, já não amanhece o brilho que existia em meus olhos
naquele instante,
Diante da chance de roubar um pouco de paz, roubar um pouco de paz,
preso por não ter sossego

Jay Vaquer

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Jours du soleil

Dias de sol
os que virão
os que levarão minhas pernas
os que abraçarão minha mente.
Silenciosamente
por entre estradas
estradas não vistas
como o emaranhado de percepções numa noite de insônia,
essas noites que trarão dias de sol.


"enquanto fazia a curva no universo e dava saltos para o infinito
a urgência ungiu minha pressa
mas os olhos cor de areia não podem mentir:
a vida necessita de pausas."
[entrerabiscosedesconstrucoes]


De pausas e de dias de sol...
Jours de soleil
Daqueles que tiram da cadeira
de fazem caminhar
desvendar
te fazem descobridor
daqueles em que você quer compor muitas flores, tons, sabores...
Hoje é um novo dia
Um nova face
Uma nova fase
E a essência perfumante ainda está lá
Sem esperar...
Apenas...
Perfumando!
[L.M.M.M]

domingo, 26 de julho de 2009

...

Não pretendo um amor sólido
tendo em vista a grande possibilidade de um sólido se romper à menor mudança
de temperatura
de pressão.
Pretendo um amor líquido
que se adapte a qualquer recipiente e, sorvido em grande goles, molhe os lábios
escorra pelo pescoço
e umedeça os países
ao sul do continente.
Líquido, para que, aquecido,
evapore, suba ao céu
chova sobre mim
encharque o chão
e tire essa tal de segurança de debaixo dos meus pés
deixe lama entre meus dedos.
não pretendo um amor assim, concreto,
não pretendo um amor assim, rígido,
não pretendo um amor, assim, sólido
mas líquido
incerto
insólito.
E se uma frente fria vinda diretamente da Patagônia
torná-lo gelo, frio, pedra,
que baste deixá-lo ligeiramente exposto ao seu olhar
e ele, regredindo a seu estado original, volte a matar essa sede
amiga, inseparável, do sertão
de nós.
[André Gonçalves]
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